Biomecânica da Marcha: Introdução e Conceitos Básicos
Key Concepts: Biomecânica da marcha, controle motor da marcha (vias piramidais e extrapiramidais), fase de apoio, fase de balanço, fase de duplo apoio, marcha vs. corrida, cadência, passo, passada, ciclo da marcha, toque do calcanhar, aceitação de carga, apoio médio, apoio final, saída do calcanhar, saída dos artelhos, balanço inicial, balanço médio, balanço final, dissociação de cinturas.
Introdução à Biomecânica da Marcha
A biomecânica da marcha é complexa, envolvendo múltiplos grupos musculares e articulações. A marcha é considerada um dos movimentos mais complexos do corpo humano, dependendo de articulações e músculos esqueléticos de quase todo o corpo para a locomoção.
Ao contrário da crença popular, a marcha não envolve apenas os membros inferiores, mas também movimentos do tornozelo, joelho, quadril, cintura pélvica e cintura escapular (movimentos de dissociação de cinturas). Além disso, o controle da marcha é modulado por partes do sistema nervoso.
Definição e Controle Motor da Marcha
A marcha é definida como o movimento normal de locomoção, frequentemente descrita como a busca constante pelo equilíbrio. Para se deslocar, geramos um desequilíbrio e buscamos continuamente o centro de equilíbrio.
O controle motor da marcha pode ser consciente (via piramidal) ou automático (vias extrapiramidais). A via piramidal é responsável pelo planejamento e controle do movimento, enquanto as vias extrapiramidais modulam os movimentos automáticos. O planejamento é necessário para iniciar, terminar, acelerar, desacelerar ou mudar de direção na marcha. A marcha em velocidade constante torna-se um movimento automático.
Pacientes com síndrome de Parkinson ou parkinsonismo apresentam alterações na marcha devido a problemas no controle dos movimentos automáticos. Quando o movimento deixa de ser voluntário e se torna automático, o paciente pode "travar" e precisar pensar para executar o movimento novamente.
Fases da Marcha
A marcha humana normal é dividida em duas fases principais:
- Fase de Apoio: O pé está em contato com o solo. Pode ser de apoio simples ou duplo.
- Fase de Balanço: O membro inferior é deslocado para frente.
- Fase de Duplo Apoio: Ambos os pés estão em contato com o solo simultaneamente (um pé já chegou e o outro ainda não saiu).
Diferença entre Marcha e Corrida
A diferença fundamental entre marcha e corrida não é a velocidade, mas a biomecânica.
- Marcha: Apoio unipodal, balanço e duplo apoio. Sempre há um ponto de contato com o solo.
- Corrida: Apoio unipodal, balanço e duplo balanço. Há um momento em que nenhum dos pés está em contato com o solo (duplo balanço).
Quanto maior o tempo de duplo apoio, mais lenta é a marcha. Ao acelerar, o tempo de duplo apoio diminui. Quando não há contato com o solo (duplo balanço), a marcha se transforma em corrida.
Subfases da Fase de Apoio
A fase de apoio é dividida em subfases (cinco ou seis, dependendo do autor):
- Toque do Calcanhar (Contato Inicial): Primeiro contato com o solo.
- Resposta de Carga (Aceitação de Peso): Transferência de peso para o membro inferior.
- Apoio Médio: Distribuição da carga sobre o arco plantar.
- Apoio Terminal: Transferência de carga do retropé e médio-pé para o antepé (presente em alguns modelos).
- Pré-Balanço (Saída do Calcanhar): Transferência da carga para a região anterior dos dedos.
- Saída dos Artelhos: Último contato com o solo.
Subfases da Fase de Balanço
A fase de balanço é dividida em três subfases:
- Balanço Inicial: Retirada do pé do solo até a linha média.
- Balanço Médio: Pé na linha média.
- Balanço Final: Projeção do membro inferior para a próxima pisada.
Cadência, Passo e Passada
- Cadência: Frequência da marcha (número de passos por minuto).
- Passo: Fase da marcha de um determinado pé até a próxima fase da marcha do outro pé (mesma fase). Ex: Toque do calcanhar do pé esquerdo até o toque do calcanhar do pé direito.
- Passada: Ciclo completo de um único membro, da fase inicial até a próxima ocorrência da mesma fase no mesmo membro. Ex: Do toque do calcanhar do pé esquerdo até o próximo toque do calcanhar do pé esquerdo.
A velocidade da marcha depende da cadência multiplicada pelo comprimento do passo ou da passada. A passada é equivalente a dois passos (em uma marcha normal e simétrica). Distúrbios de marcha, como a marcha antálgica, podem resultar em passos de comprimentos diferentes.
Ciclo da Marcha e Tempos
O ciclo da marcha é dividido em fase de apoio e fase de balanço, considerando um único membro inferior.
- Fase de Apoio: Representa aproximadamente 60% do ciclo da marcha normal.
- Fase de Balanço: Representa aproximadamente 40% do ciclo da marcha normal.
Análise Detalhada das Subfases da Fase de Apoio
- Toque do Calcanhar: Representa até 10% do ciclo completo da marcha.
- Aceitação de Carga: Transferência de carga para o membro inferior.
- Apoio Médio: Distribuição da carga sobre o pé.
- Apoio Final (Opcional): Transferência de carga para o antepé (seis subfases).
- Saída do Calcanhar: Início da projeção do tronco para frente.
- Saída dos Artelhos: Transição para a fase de balanço, com ativação do tibial anterior para dorsiflexão.
Análise Detalhada das Subfases da Fase de Balanço
- Balanço Inicial: Do momento em que os dedos deixam o solo até a perna atingir a linha média do corpo. Há ativação da dorsiflexão (tibial anterior), flexão do joelho (isquiotibiais) e flexão do quadril (iliopsoas).
- Balanço Médio: A perna passa pela linha média do corpo.
- Balanço Final: A perna se estende para se preparar para o próximo contato com o solo. Há extensão do joelho (quadríceps) e dorsiflexão do tornozelo (tibial anterior).
Em cada subfase, diferentes músculos trabalham de forma concêntrica, isométrica ou excêntrica, e ocorrem movimentos articulares específicos no tornozelo, joelho e quadril.
Biomecânica da Corrida vs. Marcha
Na corrida, a biomecânica é diferente da marcha. A corrida em ponta (contato inicial com a parte anterior do pé) pode aumentar a velocidade, mas diminui a estabilidade da articulação talocrural. Na marcha, a estabilidade é priorizada, com o toque inicial do calcanhar.
Conclusão
O estudo da biomecânica da marcha envolve a análise detalhada das fases e subfases da marcha, a identificação dos músculos envolvidos em cada fase e a compreensão dos movimentos articulares que ocorrem durante a marcha. A análise da marcha pode ser fragmentada para entender cada componente individualmente e, em seguida, integrada para compreender o movimento como um todo, incluindo a dissociação de cinturas.
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