A ciência ancestral das parteiras da Amazônia | Danielle Souza | TEDxAmazônia

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Ginecologia Natural Amazônica: Saberes Ancestrais e o Cuidado da Saúde na Amazônia

Key Concepts:

  • Parteiras/Porandeiras/Pajés/Magés: Mulheres detentoras de saberes tradicionais sobre parto, saúde e cura na Amazônia.
  • Ginecologia Natural Amazônica: Projeto que documenta e resgata os saberes ancestrais das mulheres da Amazônia, integrando-os ao conhecimento acadêmico.
  • Cosmovisão Indígena: A forma como os povos indígenas compreendem o mundo, a saúde e a doença, baseada em relações com a natureza e os espíritos.
  • Ciências Ancestrais: Conhecimentos e práticas desenvolvidos pelos povos originários ao longo de milênios, marginalizados pela história oficial.
  • Reparação Histórica: Reconhecimento e valorização dos saberes tradicionais como forma de corrigir injustiças históricas.

A Importância Cultural e Histórica das Parteiras

A palestra inicia com um convite à imaginação, transportando o ouvinte para uma cena típica de parto em uma comunidade amazônica tradicional. Uma mulher em trabalho de parto, assistida por uma parteira experiente, utilizando plantas medicinais e rituais ancestrais. A parteira é descrita como uma figura central na comunidade, um ofício milenar profundamente ligado às questões de gênero e enraizado na cultura amazônica. A narradora enfatiza que, se o parto tivesse sido realizado por uma parteira, seria mais do que um evento físico, mas um momento culturalmente significativo.

A estimativa do Instituto Histórico e Cultural do Brasil (IFAN) aponta para a existência de cerca de 20.000 parteiras na Amazônia, um número possivelmente subestimado devido às dificuldades de documentação na região. A narradora compartilha memórias de infância, lembrando da importância de sua avó e de outras mulheres da família como cuidadoras da saúde na comunidade, especialmente em regiões remotas com acesso limitado à assistência médica.

A Ginecologia Natural Amazônica: Um Projeto de Resgate e Integração

A narradora relata a criação da “Ginecologia Natural Amazônica” aos 19 anos, durante seus estudos em Belém. O projeto visa documentar as matriarcas da Amazônia – parteiras, pajés, curandeiras, erveiras – e criar espaços para a retomada desses saberes ancestrais no cuidado da mulher contemporânea. A iniciativa busca unir o pertencimento e os saberes tradicionais da família da narradora com o conhecimento acadêmico.

A questão central levantada é: como se cuidavam da saúde antes da medicina e da ciência moderna ocidental? A resposta reside nas “ciências ancestrais” desenvolvidas pelos povos originários da Amazônia há mais de 12.000 anos, saberes que foram marginalizados na escrita da história. Atualmente, com a crescente presença de indígenas, quilombolas e ribeirinhos nas universidades, há um esforço para recontar a história e registrar essas narrativas, buscando uma reparação histórica.

Cosmovisões e a Origem do Saber

A narradora compartilha experiências de documentação com a pajé Dona Maril e a parteira Dona Marilena, no sudoeste do Amazonas, no rio Sucunduri. Dona Marilena relatou ter aprendido a arte de partejar com os botos, revelando a profunda conexão entre as cosmovisões indígenas e a origem do saber. Ela enfatiza que o conhecimento é ancestralizado e repassado de geração em geração, seguindo uma metodologia própria. Dona Marilena é filha de um urugu na terra indígena do Coat Laranjal, reforçando a ligação entre os saberes tradicionais e as cosmologias indígenas.

Diálogo entre Ciências Ancestrais e Medicina Moderna

A narradora aborda a importância do diálogo entre as ciências ancestrais e a ciência moderna ocidental, buscando identificar pontos de convergência e aplicação no sistema de saúde. Ela relata a experiência de Dona Conceição, uma pajé que atuou em uma unidade de saúde básica na ilha de Cutijuba, na década de 70. Inicialmente, as parteiras foram convidadas a integrar o sistema de saúde, mas, posteriormente, foram realocadas devido à chegada de outros profissionais, evidenciando a exclusão de saberes tradicionais em um contexto marcado pelo racismo, machismo e colonialismo.

A narradora, agora professora universitária, busca unir esses saberes, ensinando aos alunos de medicina a importância do respeito e da integração entre as diferentes abordagens. Ela cita dados da OMS que demonstram que o apoio ao trabalho das parteiras pode reduzir a mortalidade materna e infantil, salvando a vida de aproximadamente 4,3 milhões de pessoas no mundo.

Obstáculos e a Necessidade de Reconhecimento

A narradora questiona o que impede o avanço efetivo desse diálogo, sugerindo que o medo da ciência ocidental de escutar as vozes do passado e reconhecer saberes silenciados pode ser um dos principais obstáculos. Ela argumenta que, em um momento de crise climática e humanitária, esse diálogo é fundamental.

Ela ressalta que o saber e o fazer das parteiras não se limitam ao cuidado físico, mas abrangem a política, a cultura e a espiritualidade. A narradora enfatiza que, sem a preservação da floresta, não há medicina nem remédio, e que é crucial valorizar esses saberes ancestrais. Ela convida o público a refletir sobre a presença de mães, tias e avós que atuaram como parteiras, benzedeiras e curandeiras em suas próprias famílias, resgatando uma memória apagada pela historiografia.

Conclusão: Um Chamado à Valorização e ao Respeito

A palestra conclui com um chamado à valorização e ao respeito às matriarcas e aos saberes ancestrais, enfatizando a importância de registrar suas histórias e práticas para as futuras gerações. A narradora compartilha um poema que expressa a força e a resistência das mulheres da floresta, um clamor pela preservação da cultura e da ancestralidade. A Ginecologia Natural Amazônica se apresenta como um projeto de documentação e resgate dessas memórias, garantindo que o nome e o fazer dessas mulheres sejam reconhecidos na história. A mensagem final é clara: a floresta de pé é essencial para a medicina e para a vida.

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